Gato Sente Saudade do Dono?

Sim, existem boas evidências de que os gatos criam vínculos importantes com seus tutores e podem reagir à ausência deles. No entanto, existe uma diferença entre dizer que o gato “sente sua falta” e afirmar que ele experimenta a saudade exatamente da mesma forma que um ser humano.

A ciência consegue observar comportamentos relacionados ao vínculo, à separação e ao reencontro. Pesquisas já demonstraram que alguns gatos utilizam seus tutores como uma fonte de segurança e apresentam mudanças de comportamento quando ficam separados deles.

Portanto, quando dizemos que um gato sente saudade do dono, a interpretação mais cuidadosa é: ele reconhece aquela pessoa como parte importante de seu ambiente social e pode perceber e reagir à ausência dela.

Gatos realmente criam vínculo com os donos?

A antiga ideia de que o gato doméstico é um animal completamente independente não representa bem o que sabemos hoje sobre comportamento felino.

Um estudo publicado em 2019 na revista Current Biology encontrou evidências de diferentes padrões de apego entre gatos e seus cuidadores humanos. Alguns animais demonstravam comportamentos compatíveis com o uso do tutor como uma espécie de “base segura”, conceito utilizado para estudar relações de apego.

Isso não significa que todo gato precise permanecer perto do tutor o tempo inteiro.

Alguns são extremamente sociáveis. Outros preferem interações curtas e mantêm uma distância maior. Personalidade, experiências anteriores, socialização e ambiente podem influenciar bastante a maneira como cada gato se relaciona com as pessoas.

Um gato que não gosta de colo, por exemplo, ainda pode ter um vínculo muito forte com seu tutor.

O que acontece quando o tutor fica fora por mais tempo?

Um pequeno estudo realizado com gatos dentro de suas próprias casas comparou separações de 30 minutos e quatro horas.

Durante boa parte do período em que ficaram sozinhos, os pesquisadores não encontraram grandes diferenças comportamentais entre as duas situações. No reencontro, porém, os gatos ronronaram e se espreguiçaram mais depois da separação de quatro horas.

Os pesquisadores interpretaram o resultado como evidência de que o tempo longe do tutor pode influenciar o comportamento social apresentado no reencontro. O estudo envolveu apenas 14 gatos, portanto não deve ser utilizado para generalizar o comportamento de todos os felinos.

Na prática, isso ajuda a explicar uma situação conhecida por muitos tutores: o gato parece perfeitamente capaz de passar algumas horas sozinho, mas muda de comportamento quando a pessoa retorna.

Como saber se o gato sentiu sua falta?

Não existe um comportamento isolado capaz de provar que um gato estava com saudade.

O mais útil é comparar a reação do animal com seu comportamento habitual.

Um gato pode procurar o tutor assim que ele chega, esfregar a cabeça ou o corpo nas pernas, levantar a cauda, vocalizar, acompanhar a pessoa pela casa ou permanecer próximo durante algum tempo.

Outros demonstram o reencontro de maneira muito mais discreta. Podem simplesmente sair do local onde estavam dormindo, aproximar-se, observar o tutor e depois retornar à rotina.

Por isso, um gato que não recebe você na porta não necessariamente é menos apegado.

O comportamento depois que você chega pode dar pistas

Comportamento observadoO que pode representar
Aproxima-se espontaneamenteInteresse social e busca de contato
Esfrega a cabeça ou o corpo no tutorComportamento afiliativo e comunicação por odor
Mia quando o tutor chegaComunicação, cumprimento ou busca de atenção
Segue o tutor por algum tempoInteresse social ou expectativa de interação
Relaxa depois que o tutor retornaA presença da pessoa pode contribuir para a sensação de segurança
Não apresenta reação evidentePode simplesmente fazer parte da personalidade daquele gato

O contexto é mais importante do que um único sinal.

Para avaliar o bem-estar do animal de forma mais ampla, também vale observar os sinais apresentados no artigo Como Saber se Seu Gato Está Feliz?.

O gato sabe que você ficou fora?

Os gatos percebem mudanças na rotina e são capazes de associar diversos sinais ao comportamento das pessoas da casa.

Pegar as chaves, colocar determinados sapatos, abrir uma bolsa ou sair em determinado horário pode fazer parte de uma sequência que o gato aprende a reconhecer.

Além disso, gatos utilizam pistas visuais, sonoras e olfativas para interpretar o ambiente.

Isso não permite afirmar que eles compreendam a passagem do tempo exatamente como nós, mas demonstra que a ausência e o retorno do tutor podem fazer parte de uma rotina reconhecível.

O cheiro do dono faz o gato sentir menos saudade?

É comum recomendar que uma roupa com cheiro do tutor seja deixada para o gato durante uma ausência.

Objetos familiares podem fazer parte de um ambiente conhecido, mas é importante não atribuir ao cheiro um efeito calmante que ainda não está bem demonstrado.

Em um estudo publicado em 2021, gatos apresentaram menos comportamentos relacionados ao estresse quando seus tutores estavam presentes em um ambiente desconhecido. Entretanto, um objeto contendo apenas o cheiro do tutor não produziu o mesmo efeito.

Ou seja: o cheiro do tutor não deve ser considerado um substituto comprovado para a presença da pessoa.

Isso também mostra por que algumas explicações populares sobre comportamento felino precisam ser tratadas com cautela.

Saudade é diferente de problema relacionado à separação

Um gato procurar carinho depois que você chega não significa que ele tenha ansiedade de separação.

É importante separar duas situações.

A primeira é o vínculo normal. O gato passa um período sozinho, mantém suas atividades e, quando o tutor retorna, busca algum tipo de interação.

A segunda envolve alterações relevantes que acontecem durante ou em torno dos períodos de separação.

Pesquisas sobre problemas relacionados à separação em gatos já identificaram comportamentos como vocalização excessiva, eliminação fora do local habitual, comportamento destrutivo, agitação e apatia em determinados animais. Os próprios pesquisadores ressaltam, porém, que essa área ainda possui evidências limitadas e que os sinais precisam ser interpretados individualmente.

Quando a ausência merece mais atenção

Observe especialmente quando o gato:

  • vocaliza intensamente sempre que fica sozinho;
  • passa a urinar ou defecar fora da caixa;
  • apresenta lambedura excessiva ou alterações importantes na higiene;
  • deixa de comer ou apresenta grande mudança de apetite;
  • fica extremamente agitado antes da saída do tutor;
  • apresenta comportamento destrutivo incomum;
  • permanece excessivamente retraído;
  • demonstra mudanças importantes e repetidas sempre que o tutor se ausenta.

Nenhum desses comportamentos, isoladamente, confirma um problema de separação.

Alterações urinárias, perda de apetite, vocalização, agressividade e isolamento também podem ocorrer por doenças, dor ou outros fatores ambientais. Por isso, mudanças significativas ou persistentes devem ser avaliadas por um médico-veterinário.

Quanto tempo um gato pode ficar sem o dono?

Não existe um número de horas que seja adequado para todos os gatos.

Um adulto saudável, acostumado à rotina e vivendo em ambiente adequado provavelmente lida com algumas horas sozinho de maneira muito diferente de um filhote, um gato idoso, um animal doente ou um gato que apresenta dificuldades relacionadas à separação.

Também importa o que acontece durante esse período.

O animal precisa ter acesso adequado a:

  • água;
  • alimentação de acordo com sua rotina;
  • caixa de areia limpa;
  • locais confortáveis para descansar;
  • esconderijos;
  • possibilidade de subir e observar o ambiente;
  • arranhadores;
  • estímulos apropriados e seguros.

Um ambiente preparado para as necessidades naturais do gato tende a ser muito mais relevante do que simplesmente deixar vários brinquedos espalhados pela casa.

Veja também o guia Como Montar um Ambiente Perfeito Para Gatos.

Como ajudar o gato a lidar melhor com sua ausência

O objetivo não deve ser fazer o gato deixar de gostar da presença do tutor. O ideal é permitir que exista um vínculo positivo sem que os períodos normais de ausência provoquem sofrimento.

Mantenha uma rotina razoavelmente previsível

Gatos costumam se beneficiar de ambientes em que recursos importantes e atividades do cotidiano são relativamente previsíveis.

Horários não precisam ser rigidamente idênticos todos os dias, mas mudanças constantes e bruscas podem ser mais difíceis para alguns animais.

Ofereça interação de qualidade enquanto estiver em casa

O tempo de convivência importa mais quando inclui atividades relevantes para o gato.

Sessões curtas de brincadeira que estimulem perseguir, capturar e explorar podem ser mais interessantes do que tentar manter o animal no colo quando ele não deseja contato.

Aproveite o espaço vertical

Prateleiras, nichos, móveis seguros e arranhadores altos aumentam a área útil do território e permitem que o gato observe o ambiente de posições elevadas.

Isso é especialmente útil em apartamentos.

Faça rodízio de brinquedos

Não é necessário deixar todos os brinquedos disponíveis permanentemente.

Alterná-los pode ajudar a manter a novidade e o interesse.

Sempre verifique se o brinquedo é seguro para uso sem supervisão. Fios, barbantes, elásticos ou objetos pequenos que possam ser engolidos não devem ficar acessíveis livremente.

Não transforme saída e chegada em eventos tensos

Não há necessidade de longas despedidas.

Da mesma forma, ao retornar, permita que o próprio gato decida quando e como deseja interagir.

Alguns vão correr até a porta. Outros aparecerão alguns minutos depois.

As duas respostas podem ser perfeitamente normais.

Adotar outro gato resolve a saudade?

Não necessariamente.

Adotar um segundo gato apenas para fazer companhia ao primeiro pode criar outro problema se os animais não forem socialmente compatíveis.

Alguns gatos convivem muito bem e estabelecem relações afiliativas. Outros apenas toleram a presença um do outro, enquanto determinadas combinações podem gerar competição, medo e estresse.

Portanto, outro gato deve ser adotado porque a família realmente deseja e tem condições de cuidar de mais um animal, considerando personalidade, espaço, recursos e um processo adequado de introdução.

Não deve ser tratado como uma solução automática para um gato que fica sozinho.

E se ele mia muito quando você não está?

Vocalização pode ter diferentes funções.

Ela pode estar relacionada à busca de contato, mas também pode ocorrer por rotina alimentar, tédio, estímulos externos, comportamento reprodutivo ou alterações de saúde.

Se o problema também acontece à noite, veja Por Que o Gato Mia de Madrugada? para entender outras causas possíveis.

Uma câmera doméstica pode ser útil para observar o que realmente acontece durante a ausência do tutor, principalmente quando existem relatos de vocalização ou comportamento destrutivo.

Ela ajuda a identificar padrões, mas não substitui uma avaliação veterinária ou comportamental quando existe sofrimento significativo.

Então, gato sente saudade do dono?

A ciência não consegue perguntar ao gato se ele experimenta a emoção humana que chamamos de “saudade”.

O que as pesquisas mostram é algo mais concreto: gatos podem formar vínculos com seus cuidadores, reconhecer sua importância social, modificar alguns comportamentos após períodos de separação e, em determinados casos, apresentar problemas relacionados à ausência da pessoa.

Por isso, dizer que um gato “sente falta” do tutor é uma maneira razoável de descrever determinados comportamentos, desde que não interpretemos todas as atitudes do animal como emoções humanas.

O melhor indicador continua sendo o próprio gato. Observe como ele normalmente se alimenta, dorme, brinca, utiliza a caixa de areia e interage com você. Mudanças nesse padrão dizem muito mais do que qualquer comportamento isolado.

Fontes e referências

Vitale KR, Behnke AC, Udell MAR. Attachment bonds between domestic cats and humans. Current Biology, 2019. DOI: 10.1016/j.cub.2019.08.036.

Eriksson M, Keeling LJ, Rehn T. Cats and owners interact more with each other after a longer duration of separation. PLOS ONE, 2017. DOI: 10.1371/journal.pone.0185599.

Machado DS et al. Identification of separation-related problems in domestic cats: A questionnaire survey. PLOS ONE, 2020. DOI: 10.1371/journal.pone.0230999.

Behnke AC, Vitale KR, Udell MAR. The effect of owner presence and scent on stress resilience in cats. Applied Animal Behaviour Science, 2021. DOI: 10.1016/j.applanim.2021.105444.

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