Por Que Alguns Gatos Escolhem Uma Pessoa Favorita?

Em uma casa com várias pessoas, é comum acontecer algo curioso: o gato recebe comida de uma pessoa, brinca com outra, convive com toda a família, mas parece ter escolhido alguém em especial.

Por Que Alguns Gatos Escolhem Uma Pessoa Favorita?

É aquela pessoa que ele segue pela casa, procura para dormir, recebe na porta ou escolhe quando quer carinho.

Isso não significa necessariamente que o gato “ame” apenas um membro da família. Os gatos podem criar vínculos com várias pessoas ao mesmo tempo. Porém, diferenças na rotina, no comportamento humano, nas experiências anteriores e na própria personalidade do felino podem fazer com que ele se sinta especialmente seguro ou confortável com determinada pessoa.

E nem sempre a escolhida é quem coloca a ração no pote.


Os gatos realmente podem ter uma pessoa favorita?

Sim, alguns gatos demonstram uma preferência bastante clara por determinada pessoa.

Entretanto, “pessoa favorita” não é uma classificação científica. É uma maneira popular de descrever uma relação na qual o gato procura uma pessoa com maior frequência para interação, descanso, brincadeiras ou sensação de segurança.

Pesquisas sobre comportamento felino mostram que gatos domésticos podem desenvolver vínculos de apego com seus cuidadores humanos. Em um estudo realizado pela Oregon State University, muitos gatos utilizaram seus cuidadores como uma fonte de segurança diante de uma situação desconhecida.

Isso ajuda a derrubar a ideia de que gatos convivem com seres humanos apenas porque recebem alimento.

Outro estudo que avaliou diferentes estímulos encontrou ampla variação entre indivíduos, mas a interação social com pessoas foi a categoria preferida por muitos dos gatos avaliados, seguida pela alimentação.

Portanto, comida importa, mas está longe de explicar toda a relação.


Por que o gato escolhe determinada pessoa?

Não existe um único motivo.

Na maioria das vezes, a preferência surge da combinação de vários fatores que fazem aquela pessoa se tornar especialmente previsível, agradável ou segura para o gato.

A pessoa respeita os limites do gato

Esse provavelmente é um dos fatores mais importantes.

Algumas pessoas querem interagir constantemente com o animal: pegam no colo, fazem carinho, chamam, abraçam ou seguem o gato quando ele tenta sair.

Para nós, isso pode parecer demonstração de afeto. Para determinados gatos, porém, pode ser desconfortável.

Curiosamente, muitas vezes o gato acaba procurando justamente a pessoa que menos força a interação.

Ela permite que o gato:

  • se aproxime quando quiser;
  • encerre o contato quando desejar;
  • cheire a mão antes do carinho;
  • escolha onde ficar;
  • tenha momentos de descanso sem ser incomodado.

Para um animal que valoriza controle sobre suas interações, isso pode fazer enorme diferença.

A rotina daquela pessoa é previsível

Gatos são bastante sensíveis à rotina.

Horários relativamente constantes para acordar, alimentar, brincar e descansar tornam o ambiente mais previsível.

Uma pessoa tranquila e consistente pode representar segurança para o animal.

O gato aprende, por exemplo, que aquela pessoa chega em determinado horário, senta no mesmo lugar, interage de maneira semelhante e não costuma surpreendê-lo com movimentos bruscos.

Com o tempo, essa previsibilidade pode favorecer a aproximação.

Ela sabe exatamente como o gato gosta de interagir

Nem todo gato gosta do mesmo tipo de contato.

Um pode gostar de carinho nas bochechas.

Outro prefere apenas alguns segundos de contato antes de se afastar.

Outro quase nunca quer colo, mas gosta de permanecer ao lado da pessoa.

Quando alguém começa a perceber essas preferências individuais e respeitá-las, as interações tendem a se tornar mais positivas.

O gato aprende algo simples: ficar perto daquela pessoa costuma resultar em experiências agradáveis.

Essa pessoa brinca com ele

Brincar também constrói relacionamento.

Sessões utilizando varinhas, ratinhos, bolinhas ou outros brinquedos que permitam perseguir, saltar e capturar estimulam comportamentos naturais do gato.

Além de proporcionar exercício e enriquecimento ambiental, essas interações podem associar determinada pessoa a momentos positivos.

Por isso, quem realmente participa da rotina do gato pode criar um vínculo forte mesmo que não seja responsável pela alimentação.


Quem dá comida sempre será a pessoa favorita?

Não.

O responsável pela alimentação naturalmente pode se tornar muito importante para o gato, principalmente porque passa a estar associado a um recurso valioso.

Entretanto, vínculo social não depende exclusivamente disso.

Um gato pode receber comida diariamente de uma pessoa e procurar outra quando deseja:

  • descansar;
  • brincar;
  • receber carinho;
  • dormir;
  • buscar segurança diante de algo desconhecido.

Um estudo publicado na revista Behavioural Processes comparou a preferência de gatos por interação humana, comida, brinquedos e estímulos olfativos. Houve diferenças consideráveis entre os indivíduos, mas a interação social com humanos foi a preferência de muitos animais avaliados.

Esse resultado reforça algo que muitos tutores observam na prática: para vários gatos, a companhia humana possui valor próprio.


A socialização quando filhote influencia?

Pode influenciar bastante.

As primeiras experiências de um gato com pessoas ajudam a moldar sua resposta a interações sociais posteriormente.

Filhotes que passam por experiências positivas com humanos durante o período inicial de socialização tendem a apresentar maior facilidade para interagir com pessoas. Segundo especialistas em comportamento veterinário da VCA Animal Hospitals, experiências sociais positivas nas primeiras semanas de vida têm papel importante no desenvolvimento comportamental.

Isso não significa que um gato adulto pouco socializado nunca poderá criar vínculos.

Ele pode.

Mas alguns animais precisarão de mais tempo, previsibilidade e respeito ao próprio espaço antes de desenvolver confiança.


A personalidade do gato também faz diferença

Dois gatos criados na mesma casa podem desenvolver comportamentos completamente diferentes.

Um pode receber qualquer visitante na porta.

Outro desaparece assim que escuta a campainha.

Um dorme no colo de várias pessoas.

Outro passa anos escolhendo praticamente sempre o mesmo tutor.

Existem diferenças individuais importantes de sociabilidade, confiança e resposta a estímulos. Experiências anteriores, genética, ambiente, saúde e socialização podem contribuir para essas diferenças.

Por isso, não existe uma fórmula universal para conquistar um gato.

O mais importante é aprender como aquele indivíduo prefere interagir.


Como saber se você é a pessoa favorita do seu gato?

Não existe um teste definitivo. O melhor é observar um conjunto de comportamentos.

ComportamentoO que pode indicar
Procura você espontaneamenteInteresse em interação e proximidade
Dorme perto ou encostado em vocêSegurança e conforto
Segue você pela casaInteresse social ou expectativa de interação
Encosta ou esfrega a cabeça em vocêComunicação social e marcação por cheiro
Pisca lentamente durante interações tranquilasRelaxamento no contexto
Escolhe seu colo mesmo havendo outras pessoasPreferência naquele momento
Leva brinquedos ou inicia brincadeirasAssociação positiva com interação
Relaxa rapidamente perto de vocêSensação de segurança

Nenhum desses sinais isoladamente prova que você é a “pessoa favorita”.

O mais importante é observar a frequência e o contexto.

Um gato que procura repetidamente determinada pessoa por iniciativa própria provavelmente mantém uma associação bastante positiva com ela.

No Galáxia Pet, você também pode entender melhor esses comportamentos em Por Que o Gato Encosta a Cabeça em Você? e Como Saber se Seu Gato Está Feliz?.


Dormir com uma pessoa significa que ela é a favorita?

Pode ser um sinal importante de confiança, mas não é suficiente para chegar a essa conclusão.

Ao descansar, o gato reduz sua vigilância. Por isso, escolher repetidamente um local próximo a determinada pessoa pode indicar que ele se sente confortável naquele contexto.

Mas também existem explicações bastante práticas.

Talvez aquela pessoa:

  • fique mais imóvel enquanto dorme;
  • ocupe a parte mais quente da cama;
  • utilize uma manta que o gato gosta;
  • durma em um quarto mais silencioso;
  • não incomode o animal durante a noite.

Comportamentos felinos quase nunca devem ser interpretados isoladamente.

É o conjunto de sinais que revela melhor a relação.


Por que meu gato prefere alguém que quase não dá atenção para ele?

Essa situação é tão comum que parece contraditória.

Uma possível explicação é que essa pessoa simplesmente não pressiona o gato.

Imagine duas pessoas.

A primeira vê o gato e imediatamente chama, tenta pegá-lo, faz carinho e insiste para que permaneça no colo.

A segunda permanece sentada e deixa que o animal decida se deseja se aproximar.

Para um gato reservado, a segunda pessoa pode parecer muito mais segura.

Ela oferece algo extremamente importante: possibilidade de escolha.

Isso não significa que você precise ignorar seu gato para conquistá-lo. Significa apenas que permitir que ele controle parte da interação costuma ser melhor do que exigir contato.


A pessoa favorita pode mudar?

Sim.

As relações entre gatos e humanos não são necessariamente permanentes ou imutáveis.

Mudanças na rotina podem alterar padrões de interação.

Imagine que uma pessoa que antes permanecia pouco em casa passa a trabalhar em home office. Ela começa a brincar diariamente com o gato, participa da alimentação e passa mais tempo no mesmo ambiente.

É possível que a relação se fortaleça.

O contrário também pode ocorrer quando alguém passa longos períodos fora, deixa de participar da rotina ou começa a estar associado repetidamente a experiências desagradáveis.

Ainda assim, isso não significa que o gato simplesmente “esqueceu” uma pessoa.

O Galáxia Pet também aborda essa relação em Gato Sente Saudade do Dono?.


Um gato pode gostar igualmente de várias pessoas?

Sim.

Nem todo gato estabelece uma preferência marcante.

Alguns convivem de maneira bastante próxima com diferentes pessoas da família e parecem procurar cada uma em determinados contextos.

Por exemplo:

  • uma pessoa para brincar;
  • outra para dormir;
  • outra durante a alimentação;
  • outra quando quer carinho.

Isso mostra por que pensar no vínculo felino como um simples ranking de “quem ele ama mais” pode ser enganoso.

Os relacionamentos podem assumir funções diferentes.


Como fortalecer seu vínculo com o gato sem forçar carinho

Se você deseja melhorar a relação com seu gato, não tente competir pela posição de “favorito”.

Trabalhe para se tornar uma presença positiva e previsível.

Deixe o gato iniciar parte das interações

Sente-se próximo e permita que ele venha até você.

Quando o gato se aproxima, ofereça a mão para que ele investigue antes de iniciar o contato.

Observe onde ele gosta de receber carinho

Muitos gatos apreciam contato na região das bochechas, testa e base das orelhas.

Mas cada animal tem suas próprias preferências.

Observe sinais de desconforto, como tentativa de sair, movimentos rápidos da cauda, orelhas posicionadas para trás ou irritação repentina.

Brinque regularmente

Sessões curtas de brincadeira podem ser mais interessantes do que insistir em colo e carinho.

Brincadeiras também oferecem exercício físico, estimulação mental e oportunidade de expressar comportamentos naturais.

Não castigue

Gritar, bater, borrifar água ou assustar deliberadamente o gato pode prejudicar a confiança e aumentar medo ou estresse.

Comportamentos indesejados devem ser compreendidos e manejados levando em consideração a causa e o ambiente.

Respeite quando ele quiser ir embora

Talvez essa seja uma das regras mais importantes.

Se o gato sair do seu colo, não o segure.

Se ele se esconder, dê espaço.

Se decidir encerrar o carinho, respeite.

Quanto mais controle o gato percebe sobre as interações, maior tende a ser sua segurança durante os próximos contatos.


O que não fazer para tentar virar a pessoa favorita

Algumas tentativas bem-intencionadas podem produzir justamente o efeito contrário.

Evite:

  • pegar o gato no colo contra a vontade dele;
  • acordá-lo constantemente para fazer carinho;
  • persegui-lo quando se afasta;
  • oferecer petiscos em excesso para “comprar” sua atenção;
  • impedir que ele se esconda;
  • forçar contato com visitantes;
  • puni-lo por evitar determinada pessoa;
  • comparar seu comportamento com o de outros gatos.

Um vínculo saudável não é construído aumentando a quantidade de contato, mas melhorando a qualidade das interações.


Quando uma mudança de preferência merece atenção?

Existe uma diferença entre um gato naturalmente preferir uma pessoa e mudar repentinamente sua maneira de interagir.

Se um gato que sempre procurava determinado tutor passa a evitá-lo completamente, especialmente acompanhado de outros comportamentos incomuns, vale observar.

Dor e desconforto podem modificar a tolerância ao toque e o comportamento social de gatos.

Procure avaliação veterinária principalmente se também houver:

  • perda de apetite;
  • isolamento incomum;
  • agressividade repentina;
  • dificuldade para se movimentar;
  • mudança no uso da caixa de areia;
  • vocalização diferente;
  • redução acentuada das brincadeiras;
  • sensibilidade ao toque.

Mudanças comportamentais não devem ser interpretadas automaticamente como “o gato deixou de gostar de mim”.


O que realmente faz um gato escolher alguém

A relação entre gatos e humanos é mais complexa do que simplesmente comida e carinho.

Um gato pode desenvolver uma preferência por determinada pessoa porque ela representa uma combinação especialmente favorável de segurança, previsibilidade, respeito ao espaço, brincadeiras e experiências positivas.

Outros gatos não demonstram uma preferência tão forte e constroem relações diferentes com cada membro da família.

Por isso, o melhor indicador de um vínculo saudável não é descobrir quem é o “favorito”.

É observar se o gato procura interação voluntariamente, relaxa perto das pessoas, consegue se afastar quando deseja e vive em um ambiente onde suas necessidades físicas e comportamentais são respeitadas.

Se você quiser interpretar melhor outras demonstrações de proximidade, veja também 10 Sinais de Que Seu Gato Ama Você.


Fontes e referências

Oregon State University — Cats, like children and dogs, develop attachments to their caregivers, study shows. Pesquisa sobre padrões de apego entre gatos e seus cuidadores.
Acessar a publicação da Oregon State University

Vitale Shreve KR, Mehrkam LR, Udell MAR. Social interaction, food, scent or toys? A formal assessment of domestic pet and shelter cat preferences. Behavioural Processes, 2017.
Consultar o estudo no PubMed

VCA Animal Hospitals — Cat Behavior Problems: Fears and Phobias. Informações sobre socialização, medo e influência das experiências iniciais no comportamento felino.
Consultar a publicação da VCA Animal Hospitals

Cornell Feline Health Center — Feline Behavior Problems: Aggression. Referência sobre alterações comportamentais, medo, dor e interações com pessoas.
Consultar o Cornell Feline Health Center

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